22.02.2018

Nº DEZ outono-inverno 2018

A cada dia, a Nº Dez ganha mais importância para mim, como negócio e como prazer. Começou como uma marca para suprir o que eu não encontrava no mercado para colocar na Dona Coisa. Em minhas escolhas para a loja priorizo a qualidade, o conforto e a atemporalidade. A Nº Dez se harmoniza com esse tripé, não só em termos de tecido e acabamento, mas esteticamente também. A ideia é que a roupa permaneça por muito tempo, que não seja um modismo, que não seja descartável. Isso, sem esquecer o fato de ser ecologicamente correta.

Quando a gente olha com mais cuidado para a roupa dita ‘luxuosa’ significa que ela tem qualidade e tende a durar mais tempo, o que, por si só, já é uma vantagem, além de causar menos danos à natureza. O resultado é que a pessoa usufrui de um profissionalismo maior em toda a sua cadeia de produção.

Na Dona Coisa, a gente pretende ter um atendimento especializado para que a roupa favoreça a cliente, que a torne ainda mais bonita. Isso faz parte de um processo que defendo: atender de maneira personalizada. É uma questão importante, pois as pessoas que criticam o mercado de luxo podem não considerar suas dificuldades e seus custos. Independente das fases que tive em minha vida, com maior ou menor poder aquisitivo, sempre preferi escolher roupas de qualidade pois acho que nos favorecem de manhã, de tarde e de noite. A Nº Dez acompanha essa filosofia.

Se você veste uma calça muito bem cortada, construída num bom tecido, pode usá-la com uma camiseta bem básica ou com uma camisa de seda e está pronta para ir às mais diferentes ocasiões. Dessa maneira, a pessoa mostra muito mais a sua singularidade. Sem dúvida, a roupa que vestimos é o retrato de quem somos. A Nº Dez, portanto, vem ao encontro da minha compreensão do que é moda, porque quero oferecer para outrem o que acredito ser o melhor.

A partir daí comecei a construir a marca e, paralelamente, na minha vida pessoal, conheci o Paco. Nunca imaginei que poderia ter um companheiro que viesse do mercado de moda. Ao olhar a coleção, ele gostou tanto que acreditou de imediato na minha proposta e me incentivou a investir nessa fatia do mercado. Se tornou sócio da empresa e ampliou a produção, assim pudemos apresentar coleções maiores. Para mim foi excelente porque não tinha experiência em confecção. Há 12 anos meu foco na Dona Coisa é a escolha dos produtos.

Estou muito feliz, principalmente depois da experiência que tivemos em São Paulo. Mostramos o nosso outono-inverno 2018, no show room da Roberta Tolentino, com o objetivo de vender para todo o Brasil. Antes, eu só vendia na Dona Coisa.  Para minha alegria, a reação das pessoas foi extremamente positiva, acima das minhas expectativas. O que mais ouvi é que a roupa atende a um segmento que está carente. Além de clássica é atemporal, extremamente contemporânea e feminina, embora ‘roube’ alguns detalhes da indumentária masculina, e tem uma sensualidade velada sempre presente.  Afinal, as ambiguidades precisam respirar.

O outono-inverno se inspira no minimalismo da pintura de Adriano de Aquino e suas pinceladas tornaram-se estampas. Além do preto e branco, os tons de azul, vermelho e ameixa, em tecidos clássicos, como shantung e seda pura, se envolvem com outras texturas refinadas em modelagens modernas e confortáveis.  A camisaria continua forte e pretendo eternizar algumas peças ícones, como dois modelos de calças, que funcionam muito bem, e alguns modelos de jeans.  A linha festa é simples e chique com destaque para o plissado.

Ir ao encontro dessa mulher cosmopolita, dinâmica e refinada, que não se rende a modismos e se identifica com um tipo de roupa descomplicada é a proposta da Nº Dez.

Obs: A coleção será lançada na Dona Coisa em 1 de março, juntamente com a exposição de Beth Franco, “Fragmentos: vida e natureza”, que fica no nosso café, DC Lá Em Cima, durante o mês de março.

15.02.2018

mala, EIS A QUESTÃO

Apesar de trabalhar com moda há tantos anos e de viajar muito, sobretudo por causa da minha profissão, pode parecer fácil arrumar uma mala, mas que hora complicada para mim!

Acho o máximo quando algumas mulheres falam assim: “‘São oito dias de viagem e na minha mala levo oito looks”. No meu caso, a escolha da roupa tem a ver com tantos fatores que se torna algo complexo. Não só penso na temperatura do lugar para onde vou, mas principalmente, o que conta é o astral do dia.

É um comportamento histórico na minha vida. Quando trabalhava no mercado financeiro acordava muito cedo. Tinha um dia longo pela frente e tentava na noite anterior deixar tudo mais ou menos pronto, pois a escolha da roupa era um momento que demorava muito. Alías, demora até hoje. Fazia isso para não gastar preciosos minutos da manhã seguinte pensando na roupa.

Para mim, a roupa tem muitos significados e representa o que estou sentindo naquele dia. Então, voltando ao tema ‘fazer mala’ dá para imaginar o quanto é difícil prever as roupas desejadas para tantos dias.

Em toda viagem que faço levo vários paninhos, que adoro e que fazem toda diferença num visual. Só que tenho paninhos de algodão, seda, outro mais quente… Enfim, levo mais paninhos do que preciso e levo também, é claro, mais roupas do que uso, sempre.

Falar comigo sobre fazer mala, mesmo sendo uma profissional de moda, talvez não ajude, e quem sabe acabo complicando a vida de quem me pergunta.

Mas, a verdade é que adoro chegar em um lugar e saber que tenho ‘quase tudo’ que vou precisar. Daí o excesso! Acabei de chegar de Trancoso e as Havaianas, uma preta e outra branca, com as pedrinhas da Swaroviski foram meu sapato da viagem. Ia com elas da praia às casas de amigos, aos restaurantes… Colocava um longuinho de seda sobre o biquíni, minhas Havaianas, um chapéu e um paninho.

Eu, que sou super preocupada com o sol, cheguei em Trancoso e me dei conta que não tinha colocado na mala meu chapéu preferido. A gente sempre esquece alguma coisa! Desta vez, tivemos a chance de ir de carro, porque levamos duas bikes, e a minha liberdade aumentou, já que não precisei me limitar à mala que levo no avião.

Nécessaire é outro item que ocupa muito ‘espaço’. Vai que acaba um produto imprescindível? Acabo levando outro como garantia. Tento fazer uma seleção bem prática, mas a bagagem vai se multiplicando. Meu secador de cabelo me acompanha sempre. Levo alguns sachês para colocar na lingerie. Levo também uma vela perfumada e um borrifador de ambiente para deixar um cheirinho que adoro no lugar que fico. Na Dona Coisa tem miniaturas de vela e de borrifador, então coloco no quarto do hotel ou na casa que estou hospedada para deixar o lugar com atmosfera pessoal. Se fosse possível levaria meu travesseiro. Assumo um tanto de frescura.

A roupa que saio de manhã independe do programa que faço, a não ser que vá a uma cerimônia, é claro! Se a escolha for mais clássica procuro desencaretar com os acessórios. Levo um saquinho com bijuterias, pois elas podem mudar completamente as roupas, senão parece que nem troquei de roupa porque, geralmente, uso preto ou branco. Gosto muito de pulseirão, colarzão.

Com bolsa até que sou objetiva. Vou com uma grande e outra pequenininha de pano para sair à noite, atravessada no corpo para não ter que carregar, mas que caiba meu paninho. Me faz bem levar alguns cartões com envelopes, já que em toda viagem a gente pode ter que deixar um bilhete, uma lembrança ou algum recado.

Na mala de mão é fundamental que tenha uma lingerie, uma camiseta a mais, pois se tiver que passar uma noite a mais num lugar tenho o kit básico que necessito. A maquiagem está sempre em minha bolsa.

Lembro que era adolescente quando minha tia, irmã de minha mãe, me ensinou a melhor maneira de fazer uma mala. Me deu as pistas básicas para aproveitar cada centímetro. Ela viajava muito e tinha a maior experiência. Aquela coisa de não dobrar muito as roupas, tentar espalhar ao máximo as peças usando toda a extensão da mala. A técnica de fazer caber as coisas não é nada complicada, difícil mesmo é a escolha do que vamos deixar de levar. Aprendi e uso os seus ensinamentos, principalmente nas voltas das viagens!

08.02.2018

trancoso

Acho uma ousadia falar de Trancoso quando tanta gente já falou, todo mundo conhece, nem que seja de nome. Mas não quero deixar de dar meu depoimento já que foi tão gostosa nossa semana de férias. Estive lá algumas vezes, mas agora foi uma Trancoso diferente que me remeteu à primeira vez que a conheci há muito tempo atrás.

Para começar fomos de carro, 1.100 quilômetros pela frente, levando duas bikes desmontadas, já que a gente ia dormir no meio do caminho e não sabíamos onde.  Todo mundo dizia: que loucura ir para Trancoso de carro, numa estrada tão perigosa, cheia de buracos. Primeira surpresa: a estrada não tem tantos buracos, em compensação nos deparamos com milhares de caminhões. As pistas são estreitas, o que requer bastante atenção.

Resolvemos dormir em São Mateus, cidade a uns 400 quilômetros de Trancoso, para que no dia seguinte, um domingo, chegássemos ainda com tempo de dar um mergulho. Pedimos uma indicação no hotel e fomos jantar num restaurante que tinha uma comida maravilhosa, o que foi uma ótima surpresa. Pensei: a viagem já começou super bem e estava menos cansativa e difícil do que imaginávamos. Fiz uma seleção de CDs para ouvir na estrada, músicas que amo muito e ia de copiloto escolhendo a trilha sonora.

Chegando na Bahia as estradas são tão retas que chegam a ser perigosas, pois podem dar muito sono, mas a natureza é maravilhosa, e é sempre muito prazeroso constatar o quanto o nosso Brasil é lindo! Seguindo o Waze encontramos um caminho que deveria ser a melhor e a mais rápida opção para Trancoso. O que encontramos foi uma estrada completamente cheia de buracos onde não se via ninguém para nos informar e acabamos nos perdendo. Isso fez com que a nossa viagem ficasse, no mínimo, duas horas mais longa.

Por indicação de uma amiga alugamos uma casinha que fica atrás da famosa Estrela D´Água, no alto de um morro. Da laje, de noite, quase sem luz na vizinhança, o céu era espetacular. O banheirinho era a céu aberto. O dono da casa, que tem um chalé perto, avisou: “Só tem um detalhe, perto do banheiro tem uma família de sapos e rãs. Não se assustem se vierem visita-los”. Fiquei apavorada durante meia hora, depois era tudo tão lindo, tão charmoso que esqueci os sapos e as rãs que, por sorte, não apareceram. Convivemos muito bem com os três cachorros da casa. Levamos algumas coisas do Rio e improvisamos um jantar.

No dia seguinte resolvemos caminhar. Para chegar até a praia pegamos uma trilha, um ladeirão, e acabou sendo uma bela caminhada. Descobrimos um lugar com algumas cabanas e almoçamos de frente para o mar, com pouquíssimas pessoas. Foi maravilhoso!

No outro dia fomos de carro à Praia do Espelho.  Andávamos na areia quando ouvi meu nome. Era um casal amigo que não via há uns 20 anos. Foi uma alegria encontrá-los. Eles são donos de uma das cinco casinhas da praia. Acabamos indo à casa deles, casa esta que não se chega de carro, e tudo é levado com um carrinho de mão. Comemos, bebemos e rimos bastante. Dia deliciosamente inesperado!

Na quarta resolvemos fazer nosso pedal. Tem uma pessoa que organiza passeios de bike, mas não havia mais lugar, então fomos sozinhos ao Parque Nacional do Pau Brasil, que é lindo. Estava muito quente e vesti bermuda e camiseta sem manga, pois não esperava entrar por trilhas dentro da mata cheia de espinhos. A trilha nos deixou algumas marcas e arranhões.

Na entrada do Parque tem uma sede e um pequeno museu, tudo muito organizado. Os funcionários ficaram felizes com nossa presença, pois nunca aparece ninguém. É uma pena. E a gente com bikes, capacetes… Um senhorzinho que trabalha lá avisou que encontraríamos uma trilha, coisa de um quilômetro e meio, por dentro da mata. Esqueceu de falar dos espinhos. Também avisou que teria uma ‘pequena ladeira’, ladeira esta que, na verdade, eram três e mais radicais que o pior ângulo de quem sobe para a Vista Chinesa, no Rio de Janeiro. Isso debaixo do sol da Bahia! Acabei empurrando a bike em duas delas, porque só consegui subir pedalando em uma.

Na volta tomamos um banho de mangueira dentro do Parque. E depois que acabou o desafio de 40 quilômetros de pedal fiquei feliz por ter conseguido dar conta. Chegamos em casa mortos de cansaço, mas fomos almoçar/jantar na Pousada do Gordo. Uma delícia! Era fim de tarde, hora que não tinha ninguém, e ficamos numa mesa com a vista do mar de Trancoso!

A cidade tem muitas opções, você pode curtir badalações ou ficar mais na sua, indo às praias quase desertas, com o mar com temperatura morna, típica do Nordeste. Tem um comércio super charmoso, enfim, pode agradar a diferentes pessoas em muitos diferentes momentos de vida. Ao lado da pizzaria Maritaca, foi inaugurada uma padaria e delicatesse fantástica com queijos de super qualidade. Enchemos a nossa casa de guloseimas.

Por lá encontrei uma amiga, cliente da Dona Coisa, que foi de uma gentileza total e nos convidou para um almoço no dia seguinte em sua casa. Ela tem um bangalô em uma praia, com uma estrutura básica, pois sua casa é mais no alto do morro, com aquele visual lindo da cidade, além da brisa constante. Ela convidou outras amigas, todas clientes da Dona Coisa. Nem acreditei na delícia do encontro!

Mais para o final da semana chegou minha amiga Patricia Xavier, que havia alugado uma casa, na Praia dos Nativos, e ficamos na companhia de grandes amigos, com caipiroscas e comidas deliciosas. Nada como ser hedonista!

Chegar em Trancoso e olhar para aquela igrejinha tão singela, cheia de história, é sempre muito prazeroso! Ter privacidade num lugar paradisíaco, luxuoso em sua simplicidade rústica, é um privilégio!

fotos: Paco Lucas

01.02.2018

gratidão

Sou absolutamente grata por tudo que me traz felicidade.

Hoje, por exemplo, reconheço que a Dona Coisa me trouxe muitas coisas boas, sobretudo as pessoas que conheci –  fornecedores e clientes –, que foram construindo minha vida de forma que me tornasse a mãe que sou, a mulher que sou, a mulher de negócios que sou. Na verdade, o que sou existe muito em função de tudo o que recebi o tempo todo, e agradeço as conquistas que me trouxeram mais e mais coisas boas.

Desde muito nova, a loja era um projeto meu. Não sabia que seria o que é, mas queria muito ter um lugar de coisas que eu amasse muito. Meu ex-marido acreditou no projeto e me apoiou. Isso me permitiu desenvolver algo muito maior do que eu imaginava inicialmente, e a consequência foi me tornar essa pessoa que se estruturou em cima desse trabalho. Ganhei a autoestima que tenho hoje. Sinto muita alegria por ter percorrido essa história.

A gratidão é uma lei da física quântica. Ser grato é ser merecedor da abundância infinita do universo. Creio no merecimento. Quando geramos sentimentos de gratidão em nossos pensamentos ativamos o sistema de recompensa do cérebro, localizado na área chamada Núcleo Accubens. Esse sistema é uma das formas da sensação de prazer do nosso corpo.

O prazer que tenho em ser grata chega a ser egoísta de tanto que suaviza a minha própria vida. Gratidão foi a palavra mais mencionada em 2017. Está intrinsicamente ligada à gentileza. Por mais que a gente corra o risco, aqui, de cair no tom piegas, não me importo, pois realmente sou grata a tudo de bom que acontece em minha vida. Afinal, gratidão é algo que ultrapassa a permuta. É uma gentileza de afeto de quem concede. É um a mais, um inesperado. Melhor ainda quando não é explícita.

Existe uma coisa complexa e contraditória na gratidão. Estranho muito quem não aguenta um favor recebido, alguém que recebe muito de outro alguém e fica tão diminuído por estar recebendo que um dia esse sentimento pode se tornar perigoso.

O prazer da gratidão quando é verdadeiro faz muito bem, não é para a pessoa que recebe algo se atrofiar. No fundo, o benefício maior é nosso. Hoje, agradeço a várias pessoas que me permitiram um livramento. Tenho gratidão ao cosmos. O outro lado – quem recebe e não é grato – gera sentimentos ‘pouco nobres’. A ingratidão é a característica de quem não reconhece o bem que lhe foi oferecido nem a ajuda que lhe foi concedida. E o pior é que a ingratidão só acontece entre pessoas que se gostam ou se gostaram. Com isso vem junto a mágoa, nada confortável.

Bem, acho que para entendermos melhor o belo temos que ter visto o feio. No final das contas, para nos sentirmos verdadeiramente gratos temos que ter passado por algumas ingratidões.

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