17.08.2017

e a colette VAI FECHAR...

A notícia do fechamento da Colette, no dia 20 de dezembro próximo, provoca uma reflexão. A perda de uma Colette é a perda de algo tão autêntico ligado à curadoria feita por Colette Roussaux e sua filha, Sarah Andelman. A marca foi construída com personalidade e alma e nela tudo é autoral. A curadoria é a chancela de que tudo que está na loja é muito bom!

A ‘loja conceito’ mais festejada de Paris, um ícone no mercado de moda e design, encerra um ciclo de 20 anos. Por muitas vezes, a Dona Coisa foi comparada à Colette, sempre por pessoas que tinham a intenção de elogiar a loja. Ouvia: ‘Aqui é a Colette brasileira’. Ficava muito feliz e também orgulhosa de receber tal elogio, mas ao mesmo tempo sempre soube de nossas diferenças e possíveis semelhanças.

Tento todos os dias da minha vida fazer com que permaneça o desejo, o prazer e todos os outros sentimentos que envolvem esse negócio que nunca pretendeu só vender produtos. Tudo na loja é a consequência de um trabalho cuja intenção é passar para cada pessoa uma experiência sensorial. Esta é a essência da Dona Coisa e fico muito atenta para que seja preservada.

Há algum tempo a Colette se transformou em point, com filas imensas de pessoas do mundo todo querendo entrar na loja. Muita gente trabalhando, muita segurança, muito tumulto, sobretudo no térreo. Não sei se este ambiente estimula quem realmente quer comprar, principalmente o que é mais caro, mais especial e que requer como dizem os franceses ‘mais reflexão’. O conceito da loja, talvez, tenha ficado equivocado para este momento. É muito difícil em uma multimarca harmonizar tantos detalhes para que tudo funcione como uma sinfonia.

A Colette sempre foi vanguardista. Abrir o Water Bar-Colette, no subsolo, foi outra ideia ousada e inovadora. A parceria com artistas democratizou ainda mais a arte. Sempre gostei da pequena seção de música e lá encontrei alguns raros prazeres sonoros.

Lamento o fechamento da Colette que escolheu a integridade sobre o lucro mais óbvio. A possibilidade de continuar sem a sua administração seria abrir mão de anos de trabalho na construção de uma marca, não apenas de uma empresa.

Intuitivamente, tenho feito meu trabalho envolvida em todos os níveis, sem o compromisso de acompanhar a moda vigente. Espero que esta autenticidade tenha sido uma das similaridades vistas por algumas pessoas entre a Colette e a Dona Coisa.

Amo a Dona Coisa e cada pessoa da minha equipe se doa como se fosse ‘dona’ também. No fundo penso que a moda varejista sempre admirou os caminhos próprios e fora do padrões tal qual o caminho escolhido por Colette Roussaux e Sarah Andelman.

10.08.2017

viagem à CROÁCIA

É muito raro eu fazer uma viagem cujo foco é vacance. Passei oito dias num catamarã, na Croácia. Fiquei pouco ligada na internet e um tanto desligada do dia a dia da loja. Queria as sensações que não fazem parte do meu padrão. Não sou muito de praia, mas depois consegui relaxar e aproveitei cada minuto da viagem com quatro casais amigos. Como busco o tempo todo tirar partido do prazer consegui tomar sol, mergulhar, comer e beber sem culpa…

A gente dormia no barco e cada noite em uma ilha diferente. Tinha um capitão e uma hostess que cozinhava lindamente. Paramos em sete ilhas que são cidades estruturadas. Fomos a restaurantes e casas noturnas com os estilos mais variados. Em Hvar, a ilha mais badalada, a noite ferve!

Depois do café da manhã saía com o Paco para passear. Alugamos bicicletas e pedalamos no asfalto pelas estradinhas que ligam as cidades. Vi muitas pessoas de todas as idades pedalando, inclusive mais idosas usando bikes assistidas na maior alegria.

No final da tarde sempre aparecia um vento e o barco velejava sem nenhum barulho. Foi uma sensação emocionante ficar deitada na rede do barco sobre o mar. A paisagem tem muito impacto pela uniformidade, tudo com o mesmo relevo e as mesmas tonalidades, sem a exuberância tropical que temos aqui.

Os croatas sabem tirar partido da natureza. Os restaurantes têm lindos jardins em construções medievais de pedras. O que me chamou muito a atenção é que o país estava em guerra até 1995, e o governo entendeu que o turismo seria uma boa fonte de renda e se organizou muito bem para isso. Nas marinas, a estrutura é perfeita para receber os barcos, tudo muito limpo e funcionando. Os banheiros públicos estão equipados para um banho confortável, muitas vezes melhor do que em alguns barcos.

Que povo bonito! Você pode ver a bandeira croata por todos os lados. As pessoas se orgulham do azeite nacional que disputa com o grego em qualidade. O vinho também é muito bom e foi uma bela surpresa. Sempre de pequenos produtores, por isso não encontramos no mercado internacional.

Às vezes pensava: como estará a loja hoje?! Mas, em seguida, tirava isso da cabeça para conseguir desfrutar de todos os prazeres que esse lugar nos proporcionava. É claro que existe um turismo forte e isso nem sempre é confortável. Muitas pessoas em todos os lugares, mas tivemos muita sorte em descobrir cantinhos super especiais normalmente frequentados pelas ‘minhocas’ da terra.

Eu diria que a Croácia é um lugar que fui e que adoraria voltar, voltar e voltar…

Alan, Adriana, Vera, Marcelo, Ligia, Gilberto, Ana, Rodrigo, Roberta e Paco
Alan, Adriana, Vera, Marcelo, Ligia, Gilberto, Ana, Rodrigo, Roberta e Paco
Alan, Adriana, Vera, Marcelo, Ligia, Gilberto, Ana, Rodrigo, Roberta e Paco
03.08.2017

os sabores de VERA BALTEIRO

Vera Balteiro é a mulher que conheço que mais amou um homem na vida. Conversar com ela, para mim, é como se estivesse lendo um livro de poesia, profundo e intenso, do jeito que gosto. Esta mulher faz doces e salgados divinos, e fala de amor através deles. A importância que ela dá a este sentimento me fascina porque eu também sou movida a amor. Meu Norte é o amor!

Eu a conheci há dois anos quando ela começou a fornecer o bolo de laranja – ‘o mais delicioso que experimentei até hoje’ -, a torta de violeta e o gâteau de chocolate para o nosso café. É uma das pessoas muito especiais que entraram para a minha vida através da Dona Coisa.

Vera foi casada por quatro décadas e tem dois filhos. Seu marido faleceu há dois anos e ela conta que foi um encontro de almas. Por causa dele resolveu cozinhar e é autodidata.

Quando a maioria feminina começou a se afirmar profissionalmente, ela fez o caminho contrário. Sua vida, eu diria, é oposta à minha e ela se dedicou em plenos anos 70, 80, 90 exclusivamente a um amor. É corajoso de sua parte, pois pode parecer deslocado nos tempos atuais, onde existem ideias tão rígidas do que é ser moderno.

Ela é mais um exemplo de mulher incomum, que foge totalmente ao padrão e que admiro pelo simples fato de estar em harmonia com os seus sentimentos.  Adoro ter amigas com personalidades tão diversificadas!

Vera conhecia a Dona Coisa e pediu a uma amiga em comum, Cristina Rudge, para nos apresentar. Seus produtos são exclusivos do café da loja. Olha que privilégio o meu! A intensidade do amor que ela viveu e vive se expressa nas delicadezas indescritíveis que faz.  E isso fala por si só!

27.07.2017

eu, CONSUMIDORA

Outro dia, uma jornalista me perguntou como era minha relação com a moda antes de ter a Dona Coisa. Ou seja, como era a Roberta consumidora de moda lá atrás.

Na hora me lembrei da minha avó materna, que morava em Recife. Alta e não muito bonita era casada com um homem lindo! Talvez, por isso, era uma mulher vaidosa, além de inteligente e muito interessante. Os dois viajavam sempre para a Europa e, desde pequena, comecei a ganhar roupas lindas que ela trazia para mim. Embora nascida e criada no Rio, eu fui uma de suas duas netas preferidas. Que sorte a minha! E quando ela resolveu dividir suas preciosidades entre os muitos netos ganhei, além de algumas joias, também seu precioso diário, onde escrevia seus pensamentos e descrevia suas viagens.

Sempre fui vaidosa e muito interessada em moda. Aos 13 anos usava calças da Smuggler e tinha uma de cada cor. Usava sapato bicolor, roupas estampadas da Yes, Brazil e da Company, símbolos de um Rio de Janeiro efervescente. Fui ‘cocota’… Sempre me encontrei no lado despojado e esportivo da moda.

Tive minha fase exótica. Assim como hoje uso muito preto usava roupas em tom roxo. Ousei sempre, sem medo de ser diferente do padrão. A partir dos 15 anos comecei a trabalhar porque queria ter as minhas coisas, sobretudo dinheiro para comprar roupas! Sempre trabalhei muito e meu primeiro emprego foi na One + One – marca jovem da Mariazinha –, empresa da família de uma grande amiga, Georgiana Vasconcellos. Saía da loja, em Ipanema, e ia para a faculdade Cândido Mendes que ficava ao lado.

A moda sempre teve uma importância muito grande para mim, e no começo dos anos 80 acompanhava o movimento de vanguarda carioca. Comprava como se fossem joias as roupas de Georges Henri, Maria Bonita, Alice Tapajós, Andrea Saletto.

Mais tarde, já casada, fui morar em São Paulo. Aí, sim, foi um divisor de águas porque tinha saído do mercado financeiro e comecei a trabalhar com moda. Conheci grandes marcas paulistas e, naquela época, fim da década de 80, pensava: um dia gostaria de ter uma loja que reunisse as roupas que gosto. E eu gostava de Gloria Coelho, Reinaldo Lourenço, Clô Orozco, da Huis Clos, Alice Capella, estilistas que não tinham lojas no Rio. Usava roupas dessas marcas, eram caras e, por isso, comprava poucas. Eram preciosidades para mim. Sempre gostei de comprar o que é muito bom. Quando não tinha muito dinheiro comprava exatamente o muito desejado e pagava em muitas vezes.

A Dona Coisa já estava no meu imaginário. Há 11 anos e meio, quando abri a loja, era muito difícil fazer uma multimarca com esses nomes, mas foi dando certo. Hoje me sinto feliz de ter um mix diversificado de talentos de várias partes do Brasil, incluindo os novos.

Quando meu salário era mais ‘contado’ tinha uma estratégia: três ternos Armani e tênis All Star. Ia assim às festas e aos eventos mais sofisticados. Mudava a blusa e os acessórios. Não tinha nenhum problema em usar as mesmas roupas. Era mais jovem, tudo ficava mais simples e dava tudo certo. As pérolas da minha avó garantiam certa elegância e eu as usava como amuleto. Já admirava Florbela Espanca que também amava pérolas. De fato, a joia tem o poder de dar o tom certo, ou errado, que cada ocasião exige.

Nunca me orientei pelo que “está na moda”. Prefiro não saber e vou usando o que gosto muito. Não há nada melhor para encontrar seu próprio estilo, e é isso que procuro passar para as minhas clientes. A liberdade interior que a gente experimenta quando rompe clichês não tem preço. Foi o que aprendi.

A moda, em qualquer circunstância, sempre foi minha aliada!

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