12.10.2017

êxtase em BILBAO

Sempre desejei conhecer o Guggenheim Bilbao. E, em setembro passado, quando surgiu a oportunidade de fazer uma viagem de carro por alguns lugares da Espanha, fiz questão de incluir a cidade basca no roteiro.

Fora o que todos sabem, que o museu é um projeto de Frank Gehry, que a inspiração de sua obra está ligada aos peixes, que ele observava na banheira de sua casa quando criança, foi impactante constatar que as formas do prédio e as texturas lembram escamas que acentuam ainda mais a grandiosidade da obra. Hoje há controvérsias se os arquitetos que constroem esses monumentos contemporâneos são ou não artistas. Prefiro me abster dessa discussão e me concentrar no prazer enorme de ter conhecido o Guggenheim Bilbao.

Com suas assimetrias e ângulos inimagináveis, a estrutura interna não prejudica as exposições, pelo contrário, destaca ainda mais a beleza de cada uma. E, para mim, também foi surpreendente ver a obra do vídeo artista norte-americano Bill Viola, que estava em cartaz desde 6 de junho e fica até 9 de novembro. A retrospectiva temática e em ordem cronológica expõe a potência de sua obra na maior parte do museu.

Ao entrar em contato com seu trabalho percebi que tinha alguns pré-conceitos em relação à arte, e vários foram desfeitos como poeira quando vi o que ele faz. Intimamente, não imaginava que pudesse ser tão grandiosa uma obra de vídeo. Ele abriu minha percepção porque, antes de tudo, o que faz é verdadeiramente lindo, e fora isso é comovente, porque transmite emoções muito diferentes. Acredito que assisti uns 30 vídeos, e em algumas instalações são projetados filmes em plataformas de mais ou menos seis metros de altura. É tudo tão inovador que, por um momento, sonhei em ter uma instalação dele em minha casa para me transportar para outro lugar!

Uma colecionadora de arte de Nova York tem uma obra de Bill Viola em seu quarto. De repente, as árvores se movimentam e mudam de cores e formas como as mudanças das estações do ano. Naquelas três ou quatro horas que passei no museu seu trabalho acrescentou algo em mim.

Tudo no Guggenheim Bilbao é muito bom, confortável e bem sinalizado A loja é muito competente, com excelente curadoria. Quando estava lá começou a chover e o carro estava muito longe. Acabei comprando uma capa de chuva super charmosa, com design lindo, vermelha com bolinhas brancas. Não resisti ao catálogo do Bill Viola, e encontramos também esculturas, roupas, objetos, livros… A gente sai muito feliz desse museu, tão moderno, com espaços amplos e luminosos, e sem aquelas filas dos museus tradicionais. Não vi muitas crianças, mas pessoas de todas as idades, sobretudo da própria Europa.

Num pátio imenso entrei em contato com a obra de Richard Serra, que amo, e que só tinha visto no museu Dia Bicol, próximo a Nova York. Andar pela parte interna das suas esculturas é emocionante. É algo misterioso porque ele desafia a lei da gravidade, e contrapõe o peso do ferro com a leveza das formas, característica de sua arte.

Na frente do museu uma escultura de Louise Bourgeois dá as boas-vindas. Não poderia ser melhor!

Fotos: Paco Lucas e reproduções

05.10.2017

um domingo CARIOCA

Geralmente, nos finais de semana, quando estou no Rio, costumo pedalar com Paco em passeios mais longos, às vezes até o Cristo. Subimos a Vista Chinesa, passamos pela Mesa do Imperador, Alto da Boa Vista, Paineiras… Além de ser um programa delicioso, saudável, faz bem à alma.

No domingo passado, trocamos a montanha, que nós dois amamos tanto, pela praia, e fomos até Grumari. Uma opção para aproveitar o dia lindo de sol, com a temperatura super agradável. Mudamos o roteiro não por desejo nosso, mas por causa do cenário de violência da Rocinha, nas duas últimas semanas. Nosso desejo era sair de casa, no Jardim Botânico, já pedalando, mas achamos perigoso. Ainda pensamos em deixar o carro em São Conrado, mas lembramos do túnel, que fica próximo à Rocinha, e preferimos deixá-lo no início da Barra. Embora o túnel tenha uma ciclovia nova não quisemos arriscar. A gente sabe que dentro dos túneis costumam roubar bicicletas.

As escolhas que fazemos, hoje, na nossa cidade são movidas por precaução e medo antes de tudo. Em função da insegurança criamos alternativas de lazer. A parte da ciclovia que caiu no ano passado continua interditada, sem nenhuma placa indicando perigo e sem nenhuma corrente de proteção. Colocaram pedras enormes, mas mesmo assim vimos pessoas passando por cima delas.

No início da Barra fomos pedalando até Grumari, em torno de 50 quilômetros entre ida e volta. Tivemos a sorte de ver uma prova de triatlo. Desde a Barra da Tijuca até o final do Recreio a pista de asfalto estava fechada para carros e totalmente livre para nós. Acabou sendo um programa raro, um pedal maravilhoso, seguro, podendo curtir a beleza daquela área do nosso Rio de Janeiro.

Em Grumari tive vontade de fazer pipi e há um banheiro, muito bem cuidado, no estacionamento de carros.  Quando cheguei perto tinha uma senhorinha com muita idade, sentadinha ao lado de uma placa: Banheiro, R$ 3. Quando saí disse a ela: Desculpe, não achei a válvula do vaso sanitário. ‘Não se preocupe, minha filha, é assim mesmo, eu jogo a água com o balde, respondeu. Isso mexeu muito comigo, pois está evidente a realidade que vivemos, ao nos deparar com a violência, com o descaso com a população.

Na volta do pedal e de encontro aos meus pensamentos, lembrei de uma viagem recente que fiz à Croácia, terra que foi devastada com guerras até 12 anos atrás, e que hoje está totalmente preparada para o turismo. Os banheiros públicos são impecáveis, com espelhos enormes, sabonete… e nos portos, os chuveiros me chamaram a atenção. Muitas vezes, melhores do que os de muitos barcos. Lá também a natureza é estonteante, mas as autoridades sabem a importância do turismo nos mínimos detalhes e reconstruíram tudo. E nosso país, tão rico, belo e grandioso vive um descaso generalizado. Fica aqui o meu lamento. Acho que nos resta tomar consciência e, de alguma forma, participar de uma possível melhora da nossa cidade, do nosso país, pensando nos nossos filhos.

Agora já sei, da próxima vez que for a Grumari vou levar um biquíni e dar um mergulho!!!

28.09.2017

equipe, o jeito DONA COISA DE SER

Quando me ocorreu o desejo de falar a respeito da minha equipe, a imagem que veio à minha cabeça foi exatamente a de um filme antigo de nado sincronizado. É assim vejo minha equipe hoje.

O fato de ter começado minha carreira profissional na moda, há 12 anos, sem experiência anterior de como funcionava o varejo, nos trouxe um perfil peculiar. Formei a equipe baseada na minha intuição e adquirimos maneiras particulares de lidar com as clientes.

A loja começou muito pequena e foi crescendo rapidamente. Sempre tive uma pessoa conhecida que me recomendava alguém. Minha seleção começa a partir da conversa. O que me encanta é sentir que estou diante de alguém que tem paixão pela Dona Coisa. Isso já é meio caminho andado para a contratação. Em todas as reuniões coloco sempre a importância do ‘jeito Dona Coisa de ser’. É o nosso patrimônio e, muitas vezes, acabo repetindo os mesmos conceitos durante todos esses anos.

Para mim, a gentileza é fundamental no tratamento para com clientes, fornecedores e colegas de trabalho. Não se trata de subserviência, e, olha, que já vivemos algumas situações delicadas. Quando chega alguém que aparentemente está ‘equivocada’, esta pessoa merece mais atenção ainda de nossa parte. É como quando procuramos um profissional de outras áreas, seja médico, advogado… adoraria que as clientes nos vissem com o profissionalismo que pode ajudá-las da melhor maneira possível na questão estética.

Quanto maior for a necessidade de uma pessoa, mais cuidado temos no nosso atendimento para que ela se sinta à vontade e confiante. A equipe acentua com naturalidade o ambiente caseiro da loja, o que acaba aproximando as pessoas. Acredito demais na cordialidade e com isso, minha equipe e eu acabamos fazendo grandes amizades com as pessoas ao nosso redor, sejam fornecedores, clientes…

Percebo que a equipe sente uma verdadeira paixão pela loja, e as próprias clientes comentam. Isso acaba reverberando no trabalho, em todos os sentidos. Tenho que frisar também a fidelidade de nossas clientes, pois a maioria está conosco desde o início da loja.

O mundo, hoje, estimula as pessoas para o padronizado, e o visual diversificado da equipe é natural e respeita cada personalidade. Acredito que nós todos funcionamos muito melhor quando nos sentimos seguros, coerentes com nossas peles e roupas. É claro que existe um padrão estético, e quando, por acaso, não gosto de algum detalhe não deixo de falar. Mas é raro acontecer. Gosto que cada um se expresse através das roupas e atitudes, porque quando isso é autêntico o resultado é sempre bacana.

Há uma história clássica na loja, a de quando fui contratar uma vendedora e a recusei. Durante a entrevista, ela falava um tanto demais e um pouco alto, me dava tapinhas no braço, enfim, pensei: de jeito nenhum quero esta pessoa na minha equipe. Ela era considerada uma super profissional no mercado. Seis meses depois precisei de alguém novamente. E ela, que queria muito fazer parte da equipe da loja, se candidatou para outra entrevista. Certamente, a ex-gerente comentou minha impressão a seu respeito. Para minha grata surpresa surgiu uma lady na minha frente. Acho que gostou do que ouviu e preferiu adotar outro estilo, e hoje é muito querida e importante para a loja. Tem o nosso DNA e uma personalidade marcante.

Prezo muito o respeito dentro da loja e, por isso, prefiro que as questões pessoais sejam tratadas fora de nossa casa. O atendimento às nossas clientes não discrimina ninguém. É pessoal, afetivo e muito importante.

Hoje a equipe é grande, contando a Dona Coisa e o café DC Lá Em Cima. Administrar egos é um exercício diário. De vez em quando preciso chamar alguém na minha sala para conversar. E digo: Vem cá, mamãe quer falar!!!

21.09.2017

dona coisa ???

Até hoje, quase 12 anos depois de abrir a loja, o que mais me perguntam é: por que escolheu este nome? Muita gente ainda o considera estranho, mas no início era muito mais.  Como a loja foi pegando, as pessoas foram se acostumando com o nome, associado, talvez, a uma mulher que tenha um nome estranho, mas sendo muito charmosa, fica interessante! Acho graça!

Lembro que conversando com minhas amigas, que acompanhavam o projeto e as marcas que eu havia escolhido, ouvia: “Você está louca? Uma loja que pretende ter produtos de excelência, voltada para o mercado de luxo com esse nome? ” Mas eu gostei muito do nome. Sabe quando bate?! Então ficou! Hoje reconheço que foi uma audácia…

É claro que pensei em outros nomes, mas na hora de batizar a loja a palavra ‘coisa’ sempre esteve muito presente. Casa de Coisas, Conjunto de Coisas… até que lendo o rótulo do vinho Doña Paula me ocorreu colocar Dona Coisa. Muito antes de pensar no nome, o conceito inicial era ter na mesma loja muitas coisas que eu amasse e que me dessem muito prazer. Roupa é a essência, mas desde sua abertura tinha joias, chocolates, flores e um pouco de papelaria também. Tudo isso estava num lugar bem pequeno, um corredor, mas sempre com muitas coisas!

A Dona Coisa agora ocupa três casas e o meu maior prazer continua sendo a escolha das ‘coisas’ que vivo procurando para que estejam na loja. Se vejo uma coisa muito boa para vestir, comer, olhar, cheirar, sentir, tento colocá-la na loja. A primeira matéria no jornal O Globo, com texto da Carol Novaes, dizia que a loja tinha tudo para dar errado a começar pelo nome e pelo endereço, numa rua que, na época, estava fora do circuito comercial. Mas em seguida, carinhosamente, começaram os elogios!

Em todos os lugares que vou e falo da loja, até em palestras, a curiosidade sobre o nome é imensa. Outras vezes me perguntam se falta alguma ‘coisa’ que eu queira colocar na loja. Sempre faltará, mas a Nº Dez é um caminho interessante para colocar as ‘coisas’ que mais acredito, porque é a nossa marca. Em termos de roupa, ela completa muito bem o que gosto e reflete meu jeito pessoal.

Hoje, a loja virou sinônimo de excelência e sou procurada por pessoas que apresentam com orgulho seus produtos como sendo “a cara da Dona Coisa”. O nome ficou muito forte. Quando alguém recebe um presente, com a sacola da loja, ouço:  “Vindo da Dona Coisa sei que vou gostar”, é um elogio muito bom de se ouvir!

Num rápido flash back musical, a palavra coisa aparece em canções bem marcantes da MPB. Em “A banda”, de Chico Buarque: “pra ver a banda passar cantando COISAS de amor”. Para Caetano Veloso, está em “Sampa”: “alguma COISA acontece no meu coração…” e em “Qualquer coisa”: “este papo já tá qualquer COISA…” Para Tom Jobim e Vinicius de Moraes entrou na “Garota de Ipanema”: “olha que COISA mais linda…”

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