14.12.2017

o amor NA MATURIDADE

Kika Gama Lobo me convidou para participar do #Atitude 50, que estreou no Youtube em 13 de novembro. O programa se propõe a entrevistar mulheres cinquentonas a falar sobre suas experiências. O lançamento foi no café da Dona Coisa, o DC Lá Em Cima, e acabei sendo a primeira entrevistada.

Inicialmente, falaria sobre bike, já que adoro pedalar. Só que a Kika ficou sabendo que eu tinha acabado de me casar, e sugeriu que falasse do amor na maturidade. Tema que adorei, pois, o amor sempre foi o Norte da minha vida. Na minha idade é muito bom ter a disposição de viver uma história de amor.

Há pouco tempo participei de uma palestra no Museu do Amanhã. Paco Rodriguez, mais conhecido como Paquito, estava na plateia e eu não o conhecia. Dois meses depois, eu estava num café, com uma amiga, e ele veio falar comigo.elogios em relação à palestra, claro que fiquei super feliz de ouvi-los. Logo em seguida, apareceu na loja e começou a frequentar os eventos, até que saímos para jantar e iniciamos um papo interminável.

Ele, realmente, foi encantador e não demorou muito para percebermos as tantas afinidades que temos, desde nossa paixão por bike até o trabalho com a moda. Paco se tornou meu sócio na Nº Dez, marca da Dona Coisa, que seria para atender a demanda da loja, mas por causa dele acabamos abrindo para outras multimarcas no Brasil. Uma senhora coragem da nossa parte neste momento.

Acreditar que esse amor seja “infinito enquanto dure” é um objetivo bem calmo no sentido de fazer do nosso dia a dia a coisa mais prazerosa possível sem idealizar a relação. Temos as questões reais, não vivemos um conto de fada, mas fazemos o possível para que o nosso sentimento supere as chatices do cotidiano.

O fato de a gente ter se encontrado num momento maduro de nossas vidas contribui bastante para isso. Hoje, as expectativas são mais coerentes. Cada um chegou com seu passado e com o desejo de que este amor dê certo. No começo senti uma certa insegurança, pois todos diziam que ele era um conquistador. Paco, sem dúvida, é um sedutor e conquistou as pessoas mais próximas de minha vida: meu filho, minha mãe e até o meu Leo, pastor belga adorável que vive grudado em mim.

A gente quer tanto que a relação dê certo que adoraríamos ficar velhinhos juntos. Acho tão bom sentir amor que o medo de não dar certo vira uma bobagem. Corremos um certo risco porque ficamos muito tempo juntos, mas nos divertimos e rimos bastante. Adoro dividir minha vida com a outra pessoa, cuidar do amor. Viro meio gueixa assumida, sem deixar de ser mulher batalhadora e empresária. E não me incomoda em nada chegar em casa e cuidar do outro. Sinto até certo prazer. Não sei cozinhar, mas adoro enfeitar a mesa.

Nosso relacionamento tem um componente juvenil, bem-humorado e acho que fiquei mais jovem ao seu lado. Tinha saído de um casamento que terminou de uma forma difícil, o que fez com que me recolhesse. Ficava em casa, bem quieta, lia muita poesia.

Além de fazer parte de minha rotina estar bem cedo no pedal, comecei a ir à praia, andar de vespa e acabei mudando um pouco a forma de me vestir. Estava sempre de preto, que adoro, e dei uma clareada. Adotei os cinzas, os azuis e me pego com vontade de usar mais jeans. Posso dizer que me sinto mais leve e acho um privilégio, nessa idade, amar novamente.

Falando de amor o “Soneto da Fidelidade” sempre me encantou. Fica aqui como um presente!

Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento antes

E com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

 

E assim quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure

07.12.2017

medo &

Diria que ganhei mais um presente de minha amiga Marion Appel, neste período que fiquei hospedada em seu apartamento, em Paris. Preparando o nosso jantar, ela comentou a respeito de uma palestra de Ingrid Betancourt, no Ted Talks, em 2 de agosto passado. Fiquei super curiosa e quando assisti o vídeo senti o quanto o assunto me mobilizava.

Lembrava que a senadora colombiana sequestrada pelas Farc, em 2002, em plena campanha presidencial ficou seis anos no cativeiro. E da repercussão mundial quando foi libertada em 2008. A vi pela televisão em seu retorno à Colômbia, muito magra e com os cabelos longos e desgrenhados. Esta mulher de aparência tão frágil, que sofreu tanta brutalidade como refém em campos de prisioneiros na selva, sobreviveu. Que mulher forte!

A Ingrid Betancourt que durante alguns minutos relembra esta experiência é, hoje, uma mulher extremamente elegante, não só em termos de indumentária, mas de educação, gestual, cultura e classe, sem a ira do sofrimento pelo qual passou. Isso é fascinante! Ela fala de maneira intimista, reflexiva, emocionada sem apelar para a pieguice. Mas acima de tudo, transmite com objetividade como é viver num contínuo estado de medo e como a sua fé – que fé é esta?!?! – a sustentou. Ela começa a palestra assim: “A primeira vez que senti medo eu tinha 41 anos”.

Ela passa a esperança e a leveza de quem se libertou.  Não traz amargura, pelo contrário, indica como superar momentos que, às vezes, aqui, fora da selva, por muito, muito menos, não sabemos ultrapassar. Ela mantém a emoção, mas sem a raiva. Impressionante a postura dessa mulher!

Na palestra para o Ted Talk, ela fala como enfrentou o medo e a importância da fé. A experiência pela qual passou está muito distante do nosso dia a dia. A gente teoriza, mas não vivencia, é uma coisa subjetiva demais, totalmente fora de um padrão real.

Me deu muita vontade através do blog, sem nenhuma pretensão de me aprofundar no assunto, de compartilhar a emoção que senti ao ouvi-la, porque nem todo mundo assistiu ao programa. Bem, só pra tentar resumir, ela conta os três passos que usou para superar o medo: princípios, união e fé.

Perto do que Ingrid passou parece que nossos medos são banais, porém o seu aprendizado pode muito bem ser aplicado ao nosso dia a dia, independentemente de estarmos diante de uma situação extrema. No abstrato, o medo é horroroso, e se você não tiver o domínio racional para pensar, ele te devora. Tento ter o tempo todo esse domínio. A gente tem que ser muito determinada senão alguma coisa surreal toma conta de nossa mente.

O medo já me imobilizou, mas esse mesmo medo, que foi um terror, me fortaleceu. Vivi alguns momentos sem saber se haveria uma rede que me sustentasse se eu perdesse o equilíbrio. Acabou se tornando um livramento. Lembro também do medo, quando era ainda menina, do primeiro mergulho na piscina de um trampolim muito alto. A naquela hora foi o meu pai me dando força.

A Dona Coisa me norteia no sentido de ter um projeto na vida, e para mantê-lo sempre estou disposta a acreditar nele. Assisti o vídeo algumas vezes e acho que aumentou a minha fé.

 

com Meryl Streep
com Meryl Streep
Ingrid Betancourt e Diane von Furstenberg autografando seus livros em um evento em Nova York, 2016
Ingrid Betancourt e Diane von Furstenberg autografando seus livros em um evento em Nova York, 2016
com Nicolas Sarkozy
com Nicolas Sarkozy
com Meryl Streep
Ingrid Betancourt e Diane von Furstenberg autografando seus livros em um evento em Nova York, 2016
com Nicolas Sarkozy
30.11.2017

sexo, drogas, amor e MUITA ELEGÂNCIA

Estava um dia lindo, frio, solão, quando vi a exposição de Yves Saint Laurent, neste começo de mês. Fui com minha querida amiga Marion Appel, que me hospedou em seu apartamento, e com Bebel Pimentel, minha saudosa assistente que agora trocou o Rio de Janeiro por Paris. O fato de estarmos as três juntas tornou ainda mais prazeroso conhecer o novo museu, que fica onde era a sua maison de couture.

Paga-se uma taxa simbólica porque a Fundação não tem fins lucrativos, sempre há uma grande fila, pois só pode entrar um número reduzido de pessoas para olhar, admirar, ler os textos com calma e ver os vídeos. Logo na entrada do palacete estão as quatro serigrafias com as quais, em 1972, Andy Warhol o imortalizou. Além dos vários, lindos, modelos expostos, os vídeos ilustram muito bem seu processo de criação e os bastidores. O acervo conta com sete mil modelos, sobretudo os de alta costura. É emocionante ver as roupas expostas em manequins e, ao mesmo tempo, poder assistir os vídeos com aquelas mesmas roupas sendo desfiladas. As roupas estão vivas, isso faz uma super diferença!

Ao chegar à sala onde ele trabalhava, você entra no clima. A mesa com pedaços de tecidos, os óculos dele junto aos croquis, fotos penduradas, inclusive duas de Catherine Deneuve, uma de suas musas mais famosas, as estantes repletas de livros, o grande espelho no qual ele avaliava suas criações, pois não usava manequins e sim modelos. Depois ouve-se os depoimentos de Pierre Bergé, seu sócio e companheiro de vida. Eles ficaram juntos até a morte de Saint Laurent, em 2008. E Bergé faleceu menos de um mês antes da inauguração do museu, em setembro deste ano, sem ver seu grande projeto finalizado.

A famosa frase de Bergé, que adoro, “Chanel deu a liberdade à mulher, Saint Laurent lhe deu o poder” é vista junto às quatro peças marcantes que destacam o lado andrógino e ousado de seu estilo. Ele “inventou” o smoking feminino e fez releituras para a jaqueta saariana, o trench coat e o macacão usado pelos aviadores. Ou seja, assim como Chanel – por quem tinha verdadeira paixão – ele ‘roubou’ algumas peças do guarda-roupa masculino e criou versões femininas.


Gosto muito de não ter medo de perder a feminilidade mesmo usando roupas que não evidenciam as curvas femininas. Me encanta profundamente essa coisa do masculino que ele usou muito bem na alfaiataria de suas coleções. É o lado atemporal. Tenho muita admiração por seu trabalho e sempre sonhei em ter um smoking do Saint Laurent. Este ano, ele me inspirou para lançar alguns modelos para a nossa marca, a Nº Dez. E a Renata Izaal, editora do Caderno Ela, do Globo, lindamente destacou a notícia numa nota com o título: YSL à la carioca.

Saí da exposição absolutamente encantada com o amor de Saint Laurent e Pierre Bergé. Que casal bacana, eles eram elegantíssimos! Os dois ficaram a vida inteira juntos, um mais tímido, o outro um empreendedor. Yves passou por fases complicadas e me fez pensar sobre quanto este amor suportou provas, porque apesar de todas as interferências, muitas do tipo barra pesada, acabaram ficando juntos até a morte.

Resolvi pesquisar um pouco mais sobre sua vida. Sabia que ele se drogava, gostava de beber, ia pra farra em Paris, mas com tudo isso, os dois conseguiram construir uma vida usando muito bem as características de cada um. O efeito dessa união foi extremamente positivo e acho que o projeto que havia em comum superou os desgastes da relação amorosa.

O que achei mais atual na exposição foi, sem dúvida, o toque masculino presente em quase todas as coleções. Ele foi avant guarde e continua sendo atualíssimo até hoje.  O lado atemporal das roupas é exatamente o que acredito e coloco na Dona Coisa. A gente se identifica com a excelência de cada peça que expõe e sabemos que vai durar muito, e que se adapta aos mais diferentes estilos. E como dizia Saint Laurent, “As modas passam, o estilo é eterno”!

Depois fomos a um restaurante que fica perto do museu, o Marius et Janete, onde tudo do mar é maravilhoso. Fica a dica de um lugar delicioso para almoçar. Ah, até setembro de 2018 a exposição está em cartaz!

Le Musée Yves Saint Laurent
Le Musée Yves Saint Laurent
No livro, os bastidores…
No livro, os bastidores…
No livro, os bastidores…
No livro, os bastidores…
com Bebel Pimentel e Marion Appel
com Bebel Pimentel e Marion Appel
Marius et Janete, um lugar delicioso para almoçar
Marius et Janete, um lugar delicioso para almoçar
Le Musée Yves Saint Laurent
No livro, os bastidores…
No livro, os bastidores…
com Bebel Pimentel e Marion Appel
Marius et Janete, um lugar delicioso para almoçar
23.11.2017

minha amiga VANESSA

Outro dia, como tantos outros, entrou minha amiga Vanessa da Mata no nosso café. Acho que ela gosta tanto do ambiente e das comidinhas que costumo chamá-la de ‘princesa do café’.

Me ocorreu falar aqui sobre esta pessoa surpreendente, cantora que todos conhecem, que vira um mulherão inacreditável no palco. Com aquela voz tão doce e aveludada toma conta do espaço cantando e dançando com o maior domínio. Além de tudo isto, ela tem uma história de vida admirável. É uma figura engraçada, tipo levada da breca. Nosso encontro foi na loja como cliente e nossa amizade foi se solidificando com o tempo. Lembro que um dia sentamos para tomar um café e eu estava num momento difícil na minha vida particular. Sem me conhecer, ela começou a falar de mim com profundidade, coisas íntimas que ninguém sabia. É espiritualizada, uma feiticeira do bem. Fiquei tão impressionada que me abri com ela. Com isso fomos criando nossa intimidade.

Quando ganhei o livro que escreveu, “A filha das flores” foi melhor ainda porque é pura poesia, extremamente sofisticado. José Eduardo Agualusa escreveu a contracapa e reconhece a riqueza de seu texto. Como amo poesia fiquei muito curiosa para saber de onde vem essa veia poética, tanto nos textos como nas músicas. Ela compõe a maioria das músicas que canta. Vanessa me contou que a literatura entrou na sua vida na infância. “Graças à minha fase de doenças infantis! Digo isso, hoje, sorrindo porque sou do tipo que aproveito tudo, e sei que até os momentos tristes podem nos ensinar muitas coisas. Tive febre reumática e tinha dores nas juntas e, aos 12 anos extraí um rim. Fazia exames horrorosos e a minha fuga era a literatura. Descobri um espaço que eu não tinha no interior de Mato Grosso, onde nasci e vivi até os 14 anos. A poesia e a literatura foram fundamentais para me conhecer, criar saídas para a minha vida. A literatura sempre me ensinou a viver, muito mais do que qualquer outra coisa”.

Fomos a alguns eventos juntas. Incrível como ela é assediada pelo público e lida com isso de uma forma bem generosa. Uma vez chegamos numa feira de moda e as duas morrendo de fome. Ela parou umas quatrocentas vezes, fez fotos, sorriu para todos, na maior simpatia, e eu morrendo de fome. Depois brinquei com ela: De onde sai este sorrisão com a fome que a gente está? Ela riu e disse: “Tenho facilidade de lidar com o ser humano porque gosto do ser humano. Sou de uma família muito simples e geralmente as pessoas que vêm falar comigo ou tiveram uma experiência grande com a minha música na vida delas ou são pessoas simples que acham interessante chegar até mim”.

A Vanessa usa sempre uma flor, já faz parte de sua imagem. “Tem coisa mais linda que flor?” Ela conta que isso é herança de sua avó materna, que tinha fascinação pelas flores. Tem sempre flores nos shows, no microfone, além de usar normalmente em seu cabelo.

Ela não esconde de ninguém o fato que um dia foi levar brinquedos num orfanato e de lá saiu com três filhos. Adotou dois meninos e uma menina, todos com mais de cinco anos. E é uma mãezona… Que coragem! Quanto amor!

Não contive minha curiosidade e perguntei como vê nossa amizade. Ouvi uma coisa linda! “A Roberta é uma pessoa elegante, mas não estou falando de elegância de vestimenta. A elegância é a mesma que posso ver em uma senhora da favela, na Rocinha, no Alemão, da minha avó, de uma menina nova no porte, no bom senso, na maneira de falar com as pessoas, na maneira de perceber nuances, na maneira como o Cartola escrevia músicas, na maneira de perceber o sofrimento e de acolher a pessoa com palavras certas. Isso é o que a representa nas palavras, na alma, na delicadeza do ser. Tem gente que nasce, é elegante e é nobre em qualquer lugar. A nobreza não está na coroa que se usa”.

Isto, realmente, é muito pessoal, mas decidi e me sinto muito feliz em compartilhar com vocês.

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