25.01.2018

BRANCO

Fui falar do preto e percebi que devo satisfações ao branco, até porque um não vive sem o outro. Um garante o outro e os limites das duas cores são muito definidos.

Assim como o preto, o branco pode ser um estado de espírito. Tem dia que dá aquela vontade enorme de sair inteiramente de branco. A roupa é só uma base pois são os acessórios que fazem toda diferença, dependendo da personalidade e do humor de cada pessoa. Nas férias de verão, na praia, o branco toma uma importância maior quando o tom da pele está bronzeado.

A primeira imagem que me ocorre ao falar do branco é a de Adriano de Aquino, quando pintava uma tela com muitas camadas de tinta branca. Isso, para mim, foi uma abertura de olhar a respeito da arte abstrata. Quantos tons de branco existem! Entendi quando ele me contou que os esquimós encontram seus caminhos na neve de acordo com as tonalidades do branco, pois ele muda de cor em função do tempo que a neve está nos lugares. Quando a gente presta atenção nas coisas vai enriquecendo o olhar, e o branco tem nuances infinitas. Assim como o preto, o branco não é tão simples como pode parecer.

Por exemplo, Martin Margiela usou muito o branco. É sua marca registrada. Mesmo agora que a Maison Margiela está sob o comando criativo de Galliano, a importância do branco nas coleções está presente, sempre. O universo visual dele é o branco. Você entra em uma loja da marca e tudo é branco, do chão ao teto, dos móveis aos objetos. Só as roupas têm outras cores. Poucas cores, além do preto e do branco.

Certa vez, em Bordeaux, tive a oportunidade de ficar num hotel cuja suíte principal havia sido feita pelo Margiela. Ela foi construída sobre um lago, exatamente no meio dele, e tinha uma ponte para se chegar até aquele espaço onde tudo era absolutamente branco. O tapete, a cama, os travesseiros, os abajures, a poltrona, tudo branco. Como contraponto só havia o beijo vermelho, que é aquele sofá do Salvador Dalí em forma de boca.

O branco é muito impactante visualmente, e emociona não só na roupa, mas na arquitetura, na arte… ele tem uma elegância tão definida quanto o preto. Em países tropicais como o nosso é impossível não ter o branco como um aliado. De dia é a própria descontração em modelos de linhas puras, de noite pode trazer uma aura etérea e refinada. Quem não gosta?

Chanel consagrou a dupla, preto e branco, e abriu uma estrada na moda que é percorrida até hoje das maneiras mais inusitadas pelos criadores contemporâneos.

Nessa temporada, o branco está presente nas coleções de importantes marcas internacionais. Até o terno branco, símbolo da mulher independente nos anos 80, voltou e ganhou várias interpretações. A de Lucie e Luke Meier, para Jil Sander, segue o estilo minimalista da fundadora da marca, com alfaiataria impecável e tecidos tecnológicos. E o queridinho da vez é o escarpim branco, destaque nas coleções de Margiela, Max Mara e Attico. O acessório que andava sumido desde o boom das botas brancas, no inverno de 2012, e após seu retorno triunfal na temporada de inverno 2014, agora se impõe. Para a Nº Dez fizemos o smoking totalmente em branco. Ficou incrível!

Reflexo direto das passarelas, as ruas das grandes cidades provam que as pessoas antenadas já incorporaram o branco na proposta atual. Em pleno verão carioca, muitas mulheres elegantes elegem vestidos em tom branco com detalhes esportivos que dão aquela modernidade ao visual. Falando novamente da Nº Dez, fizemos uma linha de camisaria em tricoline que pretendo eternizar. Amo uma camisa branca, peça indispensável no nosso guarda-roupa, e que pode ter desdobramentos surpreendentes. Numa mala de viagem, de inverno ou verão, para qualquer lugar, uma camisa branca tem a sua importância. Ela é quase tão importante quanto o jeans. E acho muito chique também o branco total usado num invernão. Fica lindo em quem sabe usar bem!

Já vi também muita gente circular com tênis branco, sem nenhum detalhe. Lembrei que, na década de 80, usá-lo acompanhando roupas sofisticadas, um smoking, por exemplo, era a grande irreverência. Hoje, o tênis branco é um clássico, e é fácil de combinar com as mais diferentes montagens visuais.

Na moda tudo volta, com um jeito diferente, mas acaba voltando!

18.01.2018

marta REIS

Embora eu não tenha na Dona Coisa um espaço dedicado só para moda praia – já tive em um momento ou outro, mas sempre muito pouco -, estou muito feliz em ter o trabalho da Marta Reis na loja. Mesmo quando ela vai contra a corrente do muito colorido, muito solar, vai ao encontro do que tanto gosto. Como quando faz uma ligação com arte, arquitetura ou poesia… acerta com maestria.

Ela não faz concessão na qualidade e suas peças têm uma pegada forte, assumidamente sexy sem ser vulgar. Pelo contrário, com muita elegância, valoriza os pontos fortes da sensualidade feminina. Ela ousa ir por um caminho mais difícil ao da maioria e vence esse desafio com naturalidade. Parece aquela cantora que, sem fazer o menor esforço, começa a cantar e a voz é linda e suave.

Sua ‘escola’ foi a Blue Man, onde durante 14 anos desenvolveu um estilo irreverente, sempre com o aval de seu criador, David Azulay. Agora, na marca que leva seu nome, mostra um produto que transmite sua forma de pensar. Sempre digo que muito mais importante do que a venda de um produto é o que ele representa. Exatamente, por trazer essa filosofia, quem usa o que ela faz ganha um ‘plus a mais’.

O segmento praia é difícil, pois maiô e biquíni são peças que, mais do que roupas, precisam funcionar no corpo e trazem muitos truques, alguns ‘invisíveis’. Graças à excelência de seu trabalho me deu vontade de aprofundar a linha balneário na Dona Coisa. Marta é exceção e tem um embasamento europeu.

Para nós, ela criou também uma linha exclusiva de maiôs plus size, onde os modelos têm um toque personalíssimo e muito cosmopolita: preto de jacquard com zíper prata, verde esmeralda, em lycra texturizada, com zíper prata e azul klein com zíper preto. São lindos!

Na coleção do alto verão 2018, ela conta que sua ideia foi mostrar que a moda praia evoluiu. Todo mundo sabe que hoje em dia, você pode ter um maiô que vai além da piscina, praia, cachoeira… Pode usar por baixo de uma chemise ou até com um terninho, numa situação que não tenha, absolutamente, nenhum vínculo com a praia. Mas, ela investe, inclusive, numa performance noturna.  Que tal um jantar à beira da piscina, cujo dress code é o maiô? Eis uma belíssima dica para as noites quentes! Criou, com exclusividade, uma linha inspirada nos trabalhos minimalistas de Mira Schendel, que adoro! Foi um pedido que fiz e não acreditei na beleza do resultado.

Novidade também são os tons uísque e mate, e acrescentou nesta coleção um leve brilho. Acho seu estilo encantador, justamente, por ser inesperado. Diria que tem um ar de alta costura.

Gosto quando Marta afirma: “Meu alvo é esta mulher moderna, que não precisa prestar contas a ninguém de seu estilo de vida, e não abre mão da qualidade”. Me identifico com sua proposta, reflexo do comportamento das novas habituées das praias, que transitam não só pelas areias, mas que circulam cheias de charme e segurança nos lugares mais diferentes, sob o sol ou lua!

11.01.2018

a clareza DO PRETO

Muitas pessoas me perguntam por que visto tanto preto. Eu diria que isso foi acontecendo de uma maneira natural. Claro que o preto ajuda a emagrecer a silhueta, e isso, por si só, já é uma boa razão para nós mulheres usá-lo. Disfarça bem quando estamos com uns quilinhos a mais, mas a definição de Yohji Yamamoto coincide com o que sinto: “O preto é modesto e arrogante ao mesmo tempo. É descontraído e fácil, mas misterioso. Mas acima de tudo o preto diz: Eu não te incomodo, não me incomode”. É o máximo da sedução do imaginário.

Amo Yohji, a arquitetura de suas modelagens amplas e a visão da sensualidade feminina com roupas fora do corpo. Ele gosta de imaginar as formas da mulher, mais do vê-las explicitamente. Aprecio os estilistas japoneses pela visão audaciosa que têm na concepção das roupas. Sabem usar muito bem o preto nas mais diferentes texturas e tonalidades.

Historicamente, na cultura ocidental, o preto tem o peso do luto, mas em 1926, a visionária Chanel tirou o clima vitoriano dele e o colocou no dia a dia. O tubinho preto de corte simples, na altura dos joelhos, que ela inventou, revolucionou a moda. Em 1961, Givenchy alterou mais uma vez a noção do preto, e foi o responsável pelo vestido, com decotão nas costas, que Audrey Hepburn eternizou na primeira cena de ‘Bonequinha de luxo’. Ela foi a precursora de Julia Roberts em ‘Uma Linda Mulher’, em 1970.

No começo da década de 80, porém, o mundo da moda foi invadido pelos estilistas japoneses, quando apresentaram suas primeiras coleções em Paris. O preto ressurgiu como cor absoluta e a partir daí tomou conta da nova elegância. As principais revistas de moda começaram a colocar os novos pretos, descontruídos, em suas capas. Os japoneses trouxeram o preto transgressor que influencia lindamente a moda até hoje e com o qual me identifico. Nos anos 90, os estilistas belgas também usaram o preto para expressar um novo momento. Hoje, o preto vive no dia a dia de todas as cidades cosmopolitas, sem contar que nos anos 80 foi o ‘uniforme’ dos profissionais de moda!

Talking to myself | by Yohji Yamamoto

Por causa do meu trabalho, acabo vendo roupas demais, talvez, como um chef que lida o tempo todo com comida, e nem sempre se delicia com todos os pratos que faz, por mais apetitosos que sejam. Na maioria das vezes, opto pelo preto pois é muito afirmativo, define formas com clareza e procuro construir em mim a arquitetura de moda que tanto admiro. É preto no branco. Acertou ou errou, mas é isso. Essas formas japonesas se estivessem em outras cores fariam uma confusão no olhar, sem que pudéssemos perceber a escultura que há em cada peça. Em suma, o preto tem a sua geometria explícita, adoro!

Talking to myself | by Yohji Yamamoto

Como fico muito tempo dentro da Dona Coisa, tiro bastante partido do preto. Quase não saio da minha ‘caverna’, como costumo dizer. Me sinto segura vestida de preto e abuso dos acessórios e paninhos. Esses acessórios, colares e anéis, podem ter os mais diferentes formatos, cores e, normalmente, escolho em função do meu humor, sem discriminar materiais. Eles transformam uma roupa básica em elegante e afirmam sua personalidade ou estado de espírito. Sempre é bom lembrar dos paninhos que, além de confortáveis podem acrescentar muito charme aos meus pretinhos básicos.

Isso não quer dizer que o colorido não seja possível, aliás é bem-vindo. O papel principal da Dona Coisa é mostrar para as nossas clientes as melhores opções para que se sintam mais seguras e coerentes com suas roupas e seus acessórios em todas as ocasiões. Acredito, verdadeiramente, que nosso approach está intrinsicamente ligado à nossa imagem. Na Dona Coisa trabalho com muitas marcas, e as diferentes pessoas podem se reconhecer nos tantos estilos da loja. O critério de seleção das peças é feito por qualidade e estética. Acredito que estar bem significa estar coerente com seu próprio estilo.

No meu caso, o preto tem uma certa magia, até de proteção!

Em tempo:
O Globo de Ouro, no domingo passado, demonstrou o mau uso da dignidade do preto. Para mim, o preto não tem nada a ver com isso…

04.01.2018

o melhor do verão É A SOMBRA

Ouvi esta frase fantástica: o melhor do verão é a sombra, e me identifiquei, imediatamente, com ela. Nunca fui de ficar horas e horas na praia como um bom carioca. Na verdade, vai chegando ao final de outubro e já penso naqueles muitos dias, muito quentes, que logo logo chegarão.

O esporte que tanto gosto, que é pedalar de manhã, com o calor excessivo fica ainda mais difícil. Sempre atrás da sombra, pedalar bem cedinho é uma saída. Ainda não está tão quente e, como pedalo na montanha – subindo o Horto até a Vista Chinesa, Paineiras… – há o frescor da madrugada. Como é bom sentir o perfume da mata, diferente ao do inverno, quando entra menos sol nesses caminhos que faço.

Desde pequena não aprecio tanto o verão. Velejava porque meu pai amava velejar. Ele trouxe os barcos laser para o Brasil. Eu e o meu irmão tivemos um dos primeiros, o nosso era o único vermelho. E a vida vai mudando… Hoje, Paco adora praia e temos ido de vez em quando. E quando vamos uso protetor 100, fico embaixo da barraca, normalmente, de chapéu. Acho que foi a Maitê Proença que disse que usa protetor solar até para ver televisão. Acho graça, mas que ela tem uma pele linda, isso ela tem! E a gente precisa, sim, cuidar da pele o quanto possível, as consequências de não se preocupar com ela podem ser irreversíveis.

Bem, então, começa o verão. A primeira coisa que faço é programar uma pausa para janeiro e nela procuro viajar para um lugar frio. Antes de ir sonho com esse momento, curto bastante o durante e quando volto ainda me delicio com os efeitos da viagem. Numa das vezes fui à Patagônia, além do fresquinho tem uma natureza exuberante, que adoro! Mas também adoro o inverno rigoroso. Certa vez fiquei em Paris por 45 dias com meu filho, e foi ótimo! Fizemos um curso de francês durante 30 dias, na mesma escola, cada um na sua turma. Íamos juntos de metrô para o colégio. Foi uma experiência diferente e deliciosa. Concordo com a visão de Wood Allen, no filme “Meia-noite em Paris”, quando ele diz que a cidade é linda no inverno!

Vou atrás da sombra também quando fico em casa nos dias muito quentes. Me cerco de tudo o que me dá prazer: guloseimas, livros, filmes, velas perfumadas e o ar condicionado devidamente revisado. Para sair escolho roupas fora do corpo, confortáveis, muito branco e não tenho nenhum problema em usar chapéu. Um Panamá, original, fica bem com roupa esportiva ou com vestido esvoaçante. É um clássico! A Nº Dez tem essa roupa confortável, solta e também aquelas peças ‘roubadas’ do masculino: macacão, colete, blazer. E essa androginia usada com feminilidade pode ficar bastante sensual.

Gosto e preciso da companhia de um turbante, super aliado, principalmente no verão, já que meus cabelos são tão rebeldes. Outro acessório indispensável são as sandálias Birkenstock, que agora viraram mania. São um perigo! De tão confortáveis, a gente acaba se viciando nelas. Adotei a Birken, de vários modelos, para as todas as estações do ano, mas sobretudo no verão.

Também não me separo dos meus ‘paninhos’ que uso no inverno. Quando entro em um restaurante ou cinema e a temperatura está muito gelada é desagradável, aí os ‘paninhos’ sempre me salvam. Prefiro os de seda, cashmere e algodão. Cada um tem a sua função, dependendo do dia ou da roupa que estou usando.

Outra sombra deliciosa: um jantar à beira da piscina com amigos cujo dress code é o maiô. É a cara do verão! Sem esquecer o vinho rosé bem gelado. Pode até ter sido moda, mas hoje já o incorporei. Acompanha bem uma refeição e dá um toque lúdico em qualquer hora do dia ou da noite. Sempre com um copo d´água ao lado.

O verão me remete também à salada de lagosta da minha família. É tradicional! Vai chegando dezembro e sempre vem alguém de Recife passar o Natal no Rio. No isopor, muitas lagostas pernambucanas com as quais fazemos a salada. É o início da temporada de festas de final de ano.

Como uso óculos com grau, fico com os meus de lentes escuras em todos os lugares. Além de me protegerem da claridade, tem hora que você não quer expressar tudo o que sente, tem noites que não dormiu tão bem e de óculos escuro fica com aquela cara estilosa.

Outro bom programa na sombra é ir ao restaurante Jojô, à noite, com o Leo, que fica deitado na calçada tomando conta de todos que passam. Depois vamos andando para casa, para dormir e sonhar com as deliciosas sombras do dia seguinte!

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