26.10.2017

manifesto IMPACTO SENSORIAL

O post desta semana é em homenagem à instalação Manifesto, que vi em Berlim, em setembro do ano passado, no Museu Für Gegenwart. Hoje entra em circuito nacional, o filme de Julian Rosefeldt, que é um desdobramento desse projeto. São duas experiências diferentes e impactantes que mostram Cate Blanchett em 13 personagens, com forte senso de estilo, num incrível processo de transformação.

Ao entrar na imensa sala do museu, iluminada por 13 telas que projetavam diferentes filmes, já era por si só uma provocação estética. Diante de cada tela estavam as imagens com textos de manifestos de pensadores transgressores do século XX. Dos que fizeram parte de movimentos futuristas e dadaístas e também da turma da Pop Art, assim como ideias de cineastas como Lars von Trier e Jim Jarmusch.

A competência tecnológica fazia com que cada filme dispensasse o fone de ouvido, sem receber a interferência do que acontecia ao lado. Mas ao ficar no meio do salão todas as vozes se misturavam num som incompreensível, como um mantra. E girando o corpo em um ângulo de 360º via-se todas as telas numa espécie de caos visual artisticamente planejado.

Impressionante ver Cate Blanchett completamente diferente nos 13 personagens. Claro que o figurino e a maquiagem foram fundamentais na composição de cada um, assim como a direção de arte, a música e a escolha das locações, todas em Berlim e nos arredores da cidade. Julian Rosefeldt assina o roteiro, a direção e a produção dessa obra alternativa realizada em apenas 12 dias. A instalação passou por várias galerias de arte importantes da Europa e também por Nova York. Saí do Museu Für Gegenwart emocionada com esta experiência orgânica.

Na exposição e no filme permanece o impacto de constatar a rara versatilidade de Cate Blanchett. Ela incorpora mendigo que faz reflexões sobre Situacionismo, coreógrafa, punk, marionetista, mulher que recita textos num enterro, funcionária de uma usina de processamento de lixo, mãe conservadora norte-americana que fala trechos da Pop Art, corretora da bolsa de valores que faz declarações futuristas…

A instalação rendeu um livro e o filme. Assistir Manifesto é uma oportunidade para quem ama arte, sobretudo a que reflete as ambiguidades do ser humano!

19.10.2017

museu BALENCIAGA

Contei no post da semana passada que na viagem que fiz, em setembro, pela região basca espanhola, realizei o desejo de conhecer o Guggenheim Bilbao. De quebra, na volta para San Sebastian, passei de carro por Getaria para conhecer o museu Balenciaga.

surpresa foi encontrar uma construção tão grandiosa numa cidadezinha tão pequena, uma vila de pescadores do século XIX. Foi lá que ele nasceu e este museu que leva seu nome é o primeiro do mundo dedicado exclusivamente à obra de um estilista.

O prédio é modernoimponente e superelegante. Foi inaugurado em 2011 e fica ao lado do Palácio Aldamar onde ele começou sua carreira como alfaiate.

acervo do museu foi doado por colecionadoras apaixonadas por seu trabalho, principalmente por Bunny Mellon – aristocrata americana – e Mona von Bismarck – socialite americana que morou muitos anos em Paris. As peças são artisticamente colocadas em espaços que valorizam os detalhes de cada uma. E iluminadas de maneira que podemos perceber não só as modelagens arrojadas e esculturais como os tecidos e as estampas preciosas.  As manequins reproduzem os corpos para os quais as roupas foram feitas. É projetado um filme, bastante didático, que narra sua trajetória, pois Critóbal não era lá muito dado a entrevistas.

Existem roupas para casamento, noite, coquetel, dia a dia, de tudo um pouco. Lá estão também os vestidos desenhados para Grace Kelly quando era princesa de Mônaco, e também o vestido de noiva da rainha Fabíola, da Bélgica. Amei a beleza e o profissionalismo da Fundação Balenciaga para nos oferecer a importância do trabalho do estilista.

Elegantíssimo, o estilo de Balenciaga tem uma sensualidade que eu adoraria que estivesse presente até hoje na preferência das mulheres. É uma roupa que, sem estar grudada ao corpo mostra o que a mulher tem de melhor, o que a valoriza. Ele sabia dar espaço ao mistério feminino. A sensualidade está aliada à elegância, tudo muito chique!

Foi um banho de cultura de maneira light e prazerosa. Através das roupas e dos desenhos acompanhei a trajetória deste genial estilista espanhol. Poder interagir com as obras de um museu contemporâneo, onde as informações são revestidas de conforto e tecnologia, é uma das grandes conquistas da modernidade!

Fotos Paco Lucas

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CURIOSIDADES

Cristóbal Balenciaga (1895-1972) é conhecido como o arquiteto da moda. Filho de um pescador e de uma costureira, ele acompanhava o trabalho de sua mãe, em Getaria, como aprendiz de alfaiate. Aos 12 anos, uma marquesa percebeu que o garoto tinha jeito para a costura e o enviou para Madri para se profissionalizar.

Ele trabalhou como alfaiate em Getaria e em algumas lojas importantes de San Sebastian. E dizia: “Um bom estilista tem que ser um arquiteto nas formas, um pintor nas cores, um músico na harmonia das linhas e um filósofo nos tamanhos das roupas”.

Em 1919, aos 24 anos, abriu uma butique em San Sebastian. As famílias reais espanholas, assim como a aristocracia, se tornaram suas clientes.

Paris projetou seu nome mundialmente, onde começou a trabalhar em 1936.

Coco Chanel, Hubert de Givenchy e Christian Dior eram seus grandes admiradores. Este o chamou de “mestre de todos nós”.

Não foi fácil fazer um levantamento de sua obra porque o estilista nunca escreveu uma biografia e não cortejava a imprensa, que ignorou nos primeiros dez anos de sua carreira em Paris. 

A Fundação Cristóbal Balenciaga reuniu 1200 peças.

Diana Vreeland foi a primeira a escolher Balenciaga para uma grande retrospectiva no MET, em Nova York, em 1973.

12.10.2017

êxtase em BILBAO

Sempre desejei conhecer o Guggenheim Bilbao. E, em setembro passado, quando surgiu a oportunidade de fazer uma viagem de carro por alguns lugares da Espanha, fiz questão de incluir a cidade basca no roteiro.

Fora o que todos sabem, que o museu é um projeto de Frank Gehry, que a inspiração de sua obra está ligada aos peixes, que ele observava na banheira de sua casa quando criança, foi impactante constatar que as formas do prédio e as texturas lembram escamas que acentuam ainda mais a grandiosidade da obra. Hoje há controvérsias se os arquitetos que constroem esses monumentos contemporâneos são ou não artistas. Prefiro me abster dessa discussão e me concentrar no prazer enorme de ter conhecido o Guggenheim Bilbao.

Com suas assimetrias e ângulos inimagináveis, a estrutura interna não prejudica as exposições, pelo contrário, destaca ainda mais a beleza de cada uma. E, para mim, também foi surpreendente ver a obra do vídeo artista norte-americano Bill Viola, que estava em cartaz desde 6 de junho e fica até 9 de novembro. A retrospectiva temática e em ordem cronológica expõe a potência de sua obra na maior parte do museu.

Ao entrar em contato com seu trabalho percebi que tinha alguns pré-conceitos em relação à arte, e vários foram desfeitos como poeira quando vi o que ele faz. Intimamente, não imaginava que pudesse ser tão grandiosa uma obra de vídeo. Ele abriu minha percepção porque, antes de tudo, o que faz é verdadeiramente lindo, e fora isso é comovente, porque transmite emoções muito diferentes. Acredito que assisti uns 30 vídeos, e em algumas instalações são projetados filmes em plataformas de mais ou menos seis metros de altura. É tudo tão inovador que, por um momento, sonhei em ter uma instalação dele em minha casa para me transportar para outro lugar!

Uma colecionadora de arte de Nova York tem uma obra de Bill Viola em seu quarto. De repente, as árvores se movimentam e mudam de cores e formas como as mudanças das estações do ano. Naquelas três ou quatro horas que passei no museu seu trabalho acrescentou algo em mim.

Tudo no Guggenheim Bilbao é muito bom, confortável e bem sinalizado A loja é muito competente, com excelente curadoria. Quando estava lá começou a chover e o carro estava muito longe. Acabei comprando uma capa de chuva super charmosa, com design lindo, vermelha com bolinhas brancas. Não resisti ao catálogo do Bill Viola, e encontramos também esculturas, roupas, objetos, livros… A gente sai muito feliz desse museu, tão moderno, com espaços amplos e luminosos, e sem aquelas filas dos museus tradicionais. Não vi muitas crianças, mas pessoas de todas as idades, sobretudo da própria Europa.

Num pátio imenso entrei em contato com a obra de Richard Serra, que amo, e que só tinha visto no museu Dia Beacon, próximo a Nova York. Andar pela parte interna das suas esculturas é emocionante. É algo misterioso porque ele desafia a lei da gravidade, e contrapõe o peso do ferro com a leveza das formas, característica de sua arte.

Na frente do museu uma escultura de Louise Bourgeois dá as boas-vindas. Não poderia ser melhor!

Fotos: Paco Lucas e reproduções

05.10.2017

um domingo CARIOCA

Geralmente, nos finais de semana, quando estou no Rio, costumo pedalar com Paco em passeios mais longos, às vezes até o Cristo. Subimos a Vista Chinesa, passamos pela Mesa do Imperador, Alto da Boa Vista, Paineiras… Além de ser um programa delicioso, saudável, faz bem à alma.

No domingo passado, trocamos a montanha, que nós dois amamos tanto, pela praia, e fomos até Grumari. Uma opção para aproveitar o dia lindo de sol, com a temperatura super agradável. Mudamos o roteiro não por desejo nosso, mas por causa do cenário de violência da Rocinha, nas duas últimas semanas. Nosso desejo era sair de casa, no Jardim Botânico, já pedalando, mas achamos perigoso. Ainda pensamos em deixar o carro em São Conrado, mas lembramos do túnel, que fica próximo à Rocinha, e preferimos deixá-lo no início da Barra. Embora o túnel tenha uma ciclovia nova não quisemos arriscar. A gente sabe que dentro dos túneis costumam roubar bicicletas.

As escolhas que fazemos, hoje, na nossa cidade são movidas por precaução e medo antes de tudo. Em função da insegurança criamos alternativas de lazer. A parte da ciclovia que caiu no ano passado continua interditada, sem nenhuma placa indicando perigo e sem nenhuma corrente de proteção. Colocaram pedras enormes, mas mesmo assim vimos pessoas passando por cima delas.

No início da Barra fomos pedalando até Grumari, em torno de 50 quilômetros entre ida e volta. Tivemos a sorte de ver uma prova de triatlo. Desde a Barra da Tijuca até o final do Recreio a pista de asfalto estava fechada para carros e totalmente livre para nós. Acabou sendo um programa raro, um pedal maravilhoso, seguro, podendo curtir a beleza daquela área do nosso Rio de Janeiro.

Em Grumari tive vontade de fazer pipi e há um banheiro, muito bem cuidado, no estacionamento de carros.  Quando cheguei perto tinha uma senhorinha com muita idade, sentadinha ao lado de uma placa: Banheiro, R$ 3. Quando saí disse a ela: Desculpe, não achei a válvula do vaso sanitário. ‘Não se preocupe, minha filha, é assim mesmo, eu jogo a água com o balde, respondeu. Isso mexeu muito comigo, pois está evidente a realidade que vivemos, ao nos deparar com a violência, com o descaso com a população.

Na volta do pedal e de encontro aos meus pensamentos, lembrei de uma viagem recente que fiz à Croácia, terra que foi devastada com guerras até 12 anos atrás, e que hoje está totalmente preparada para o turismo. Os banheiros públicos são impecáveis, com espelhos enormes, sabonete… e nos portos, os chuveiros me chamaram a atenção. Muitas vezes, melhores do que os de muitos barcos. Lá também a natureza é estonteante, mas as autoridades sabem a importância do turismo nos mínimos detalhes e reconstruíram tudo. E nosso país, tão rico, belo e grandioso vive um descaso generalizado. Fica aqui o meu lamento. Acho que nos resta tomar consciência e, de alguma forma, participar de uma possível melhora da nossa cidade, do nosso país, pensando nos nossos filhos.

Agora já sei, da próxima vez que for a Grumari vou levar um biquíni e dar um mergulho!!!

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